terça-feira, março 09, 2010
terça-feira, março 02, 2010
Meditação
Allan Wallace: o cientista da consciência
É difícil meditar quando se tem fome, diz Alan Wallace, o físico que foi monge. Hoje, além de escritor de quatro livros sobre ciência e práticas contemplativas, ele comanda neurocientistas, sociólogos e psicólogos, num instituto de estudos da consciência, na Califórnia
Liane Alves
Revista Vida Simples - 10/2009
Alan Wallace tem uma característica especial que o diferencia dos seus pares na área da física e da neurobiologia: foi durante 20 anos um monge budista,morou em Dharamsala, na Índia, traduziu mais de 30 livros do tibetano para o inglês, estudou com os mais altos mestres do Tibete e ainda ocupou o posto de intérprete ofi cial de sua santidade, o Dalai-Lama. Hoje, novamente como cientista e físico e autor de quarto importantes livros sobre ciência e práticas contemplativas, Wallace comanda um verdadeiro exército de neurocientistas, antropólogos, sociólogos e psicólogos no Instituto Santa Bárbara de Estudos da Consciência, na Califórnia.
Sua missão principal é analisar os efeitos da meditação nos seres humanos em dezenas de experimentos e numa enorme gama de voluntários – desde de quem nunca meditou até monges com milhares de horas dedicadas à prática. As descobertas desses estudos surpreendem e seu olhar sereno sobre o despertar interno da consciência traz esperança para a humanidade. Alan Wallace esteve em junho no Brasil a convite do Centro de Estudos Budistas Bodisatva para dar palestras em várias capitais brasileiras e lançar seu ultimo livro, As Dimensões Escondidas.
A meditação não é necessária à sobrevivência. Que vantagens poderia haver para um ser humano comum a prática de meditar todos os dias?
Se você tiver um cachorrinho, der a ele um bom prato de comida e deixá-lo namorar as cachorrinhas da vizinhança, ainda assim você não pode dizer a ele: “Ok, cachorrinho, estou dando uma boa alimentação, deixando você ter o sexo que quiser, então, agora, já que você tem tudo, vamos para um lugar tranquilo para tentar meditar um pouquinho...” (risos) Provavelmente seu cachorro vai preferir tirar uma soneca para daí a pouco querer comer de novo, ter mais sexo e assim por diante. Nosso lado animal não quer saber de meditar e pode viver perfeitamente bem sem a meditação ou qualquer outra prática espiritual. Mas temos a consciência. É ela que vai se interessar por alguma coisa além da satisfação das necessidades físicas. Mas, em todo caso, é mais fácil quando temos as necessidades materiais básicas satisfeitas. É difícil querer meditar quando se tem fome, frio, quando se está doente ou não se tem um teto. Um praticante experiente pode fazer isso, mas para uma pessoa comum é difícil.
Mesmo assim, a resistência pode ser grande. Por quê?
Quando as pessoas atingem esse nível básico de segurança e felicidade materiais, geralmente vão querer mais do mesmo. Isto é, se elas têm uma casa, vão querer uma mansão, se têm um carro, vão querer outro, se têm alimento suficiente, vão sofisticá-lo. Querer mais da mesma coisa para satisfazer nosso lado animal é o que acontece para pessoas sem muita imaginação. Mas, se usarmos a inteligência e a memória únicas de um ser humano, vamos ver que ter mais da mesma coisa realmente não nos faz muito mais felizes ou satisfeitos. É fácil observar quantas pessoas ricas, famosas ou intelectualmente dotadas, como os grandes cientistas e escritores, se sentem frustradas, infelizes, deprimidas, inseguras. Então, é necessário usar nossa inteligência humana para perguntar a verdadeira questão: qual é a real causa da felicidade? O que realmente pode nos fazer felizes?
Qual seria a resposta?
Ir em direção aos níveis internos de consciência. Quanto mais você se aprofundar neles, mais o nível externo e material se torna relativo. Conheço monges no Tibete vivendo em condições precárias, sem aquecimento, roupas ou alimentação adequados, e que são felizes. Não é que alguém tenha de negar ou abandonar de vez a efêmera felicidade material. Mas, ao experimentar outros níveis de consciência, você se torna muito menos dependente do externo para ser feliz. Fama, sucesso, beleza e riqueza material diminuem de importância de forma absolutamente natural. Outras qualidades emergem: amor, compaixão, satisfação e pacificação internas, as verdadeiras causas da felicidade mais perene.
O senhor poderia dar um resumo dos benefícios de um período de meditação de 20 a 30 minutos por dia?
Já foi cientificamente provado que um curto período de prática como esse é capaz de aumentar expressivamente nosso equílibrio emocional, nossa capacidade de atenção e presença e ainda gerar uma empatia pelas pessoas. Essa condição resulta num decréscimo de estresse e ansiedade e no notável aumento de bemestar. É como manter a prática diária de uma “higiene psicológica”, que nos ajuda a manter um nível alto de saúde mental e resiliência.
O título do seu livro mais recente fala em “dimensões escondidas”. Quais são elas e como acessá-las com a prática da meditação?
A ciência moderna pode contra com telescópios avançados para perscrutar o Universo, mas não desenvolveu um telescópio capaz de nos fazer alcançar os níveis internos de consciência. E isso as tradições como o vedanta, no hinduísmo, o hesicasmo, no cristianismo, a cabala, no judaísmo, e o dzogchen, no budismo, fazem. Essas práticas nos revelam dimensões múltiplas de consciência, algo além da nossa classificação de mente consciente e inconsciente. Eles identificaram um reino de existência muito mais sutil, que vai além do mundo dualístico de material e energia. É desse plano que falo em As Dimensões Escondidas. Os praticantes de meditação foram capazes de atingir o grau supremo de realidade que transcende o espaço, o tempo e os conceitos. Esse é o nível primordial de consciência, a fonte de toda virtude e felicidade genuínas, que é conhecido como Deus nas tradições teístas ou plano supremo, de onde tudo emerge, ou dharmakaya, no budismo. A experiência contemplative fornece um elo entre a ciência e a espiritualidade, pois ela mesma se baseia na experiência, exatamente como se faz nos experimentos científicos, e na racionalidade, com a vantagem de poder ir além de qualquer ramo que a ciência possa penetrar. A união da investigação científica com a experiência contemplativa pode gerar uma grande revolução da ciência. Essa pode ser uma possibilidade gigante que se abre, capaz de curar a distância entre ciência e religião e mesmo entre as religiões que estão em luta pelo mundo.
PARA SABER MAIS:
As Dimensões Escondidas, Alan Wallace, Fundação Peirópolis
É difícil meditar quando se tem fome, diz Alan Wallace, o físico que foi monge. Hoje, além de escritor de quatro livros sobre ciência e práticas contemplativas, ele comanda neurocientistas, sociólogos e psicólogos, num instituto de estudos da consciência, na Califórnia
Liane Alves
Revista Vida Simples - 10/2009
Alan Wallace tem uma característica especial que o diferencia dos seus pares na área da física e da neurobiologia: foi durante 20 anos um monge budista,morou em Dharamsala, na Índia, traduziu mais de 30 livros do tibetano para o inglês, estudou com os mais altos mestres do Tibete e ainda ocupou o posto de intérprete ofi cial de sua santidade, o Dalai-Lama. Hoje, novamente como cientista e físico e autor de quarto importantes livros sobre ciência e práticas contemplativas, Wallace comanda um verdadeiro exército de neurocientistas, antropólogos, sociólogos e psicólogos no Instituto Santa Bárbara de Estudos da Consciência, na Califórnia.
Sua missão principal é analisar os efeitos da meditação nos seres humanos em dezenas de experimentos e numa enorme gama de voluntários – desde de quem nunca meditou até monges com milhares de horas dedicadas à prática. As descobertas desses estudos surpreendem e seu olhar sereno sobre o despertar interno da consciência traz esperança para a humanidade. Alan Wallace esteve em junho no Brasil a convite do Centro de Estudos Budistas Bodisatva para dar palestras em várias capitais brasileiras e lançar seu ultimo livro, As Dimensões Escondidas.
A meditação não é necessária à sobrevivência. Que vantagens poderia haver para um ser humano comum a prática de meditar todos os dias?
Se você tiver um cachorrinho, der a ele um bom prato de comida e deixá-lo namorar as cachorrinhas da vizinhança, ainda assim você não pode dizer a ele: “Ok, cachorrinho, estou dando uma boa alimentação, deixando você ter o sexo que quiser, então, agora, já que você tem tudo, vamos para um lugar tranquilo para tentar meditar um pouquinho...” (risos) Provavelmente seu cachorro vai preferir tirar uma soneca para daí a pouco querer comer de novo, ter mais sexo e assim por diante. Nosso lado animal não quer saber de meditar e pode viver perfeitamente bem sem a meditação ou qualquer outra prática espiritual. Mas temos a consciência. É ela que vai se interessar por alguma coisa além da satisfação das necessidades físicas. Mas, em todo caso, é mais fácil quando temos as necessidades materiais básicas satisfeitas. É difícil querer meditar quando se tem fome, frio, quando se está doente ou não se tem um teto. Um praticante experiente pode fazer isso, mas para uma pessoa comum é difícil.
Mesmo assim, a resistência pode ser grande. Por quê?
Quando as pessoas atingem esse nível básico de segurança e felicidade materiais, geralmente vão querer mais do mesmo. Isto é, se elas têm uma casa, vão querer uma mansão, se têm um carro, vão querer outro, se têm alimento suficiente, vão sofisticá-lo. Querer mais da mesma coisa para satisfazer nosso lado animal é o que acontece para pessoas sem muita imaginação. Mas, se usarmos a inteligência e a memória únicas de um ser humano, vamos ver que ter mais da mesma coisa realmente não nos faz muito mais felizes ou satisfeitos. É fácil observar quantas pessoas ricas, famosas ou intelectualmente dotadas, como os grandes cientistas e escritores, se sentem frustradas, infelizes, deprimidas, inseguras. Então, é necessário usar nossa inteligência humana para perguntar a verdadeira questão: qual é a real causa da felicidade? O que realmente pode nos fazer felizes?
Qual seria a resposta?
Ir em direção aos níveis internos de consciência. Quanto mais você se aprofundar neles, mais o nível externo e material se torna relativo. Conheço monges no Tibete vivendo em condições precárias, sem aquecimento, roupas ou alimentação adequados, e que são felizes. Não é que alguém tenha de negar ou abandonar de vez a efêmera felicidade material. Mas, ao experimentar outros níveis de consciência, você se torna muito menos dependente do externo para ser feliz. Fama, sucesso, beleza e riqueza material diminuem de importância de forma absolutamente natural. Outras qualidades emergem: amor, compaixão, satisfação e pacificação internas, as verdadeiras causas da felicidade mais perene.
O senhor poderia dar um resumo dos benefícios de um período de meditação de 20 a 30 minutos por dia?
Já foi cientificamente provado que um curto período de prática como esse é capaz de aumentar expressivamente nosso equílibrio emocional, nossa capacidade de atenção e presença e ainda gerar uma empatia pelas pessoas. Essa condição resulta num decréscimo de estresse e ansiedade e no notável aumento de bemestar. É como manter a prática diária de uma “higiene psicológica”, que nos ajuda a manter um nível alto de saúde mental e resiliência.
O título do seu livro mais recente fala em “dimensões escondidas”. Quais são elas e como acessá-las com a prática da meditação?
A ciência moderna pode contra com telescópios avançados para perscrutar o Universo, mas não desenvolveu um telescópio capaz de nos fazer alcançar os níveis internos de consciência. E isso as tradições como o vedanta, no hinduísmo, o hesicasmo, no cristianismo, a cabala, no judaísmo, e o dzogchen, no budismo, fazem. Essas práticas nos revelam dimensões múltiplas de consciência, algo além da nossa classificação de mente consciente e inconsciente. Eles identificaram um reino de existência muito mais sutil, que vai além do mundo dualístico de material e energia. É desse plano que falo em As Dimensões Escondidas. Os praticantes de meditação foram capazes de atingir o grau supremo de realidade que transcende o espaço, o tempo e os conceitos. Esse é o nível primordial de consciência, a fonte de toda virtude e felicidade genuínas, que é conhecido como Deus nas tradições teístas ou plano supremo, de onde tudo emerge, ou dharmakaya, no budismo. A experiência contemplative fornece um elo entre a ciência e a espiritualidade, pois ela mesma se baseia na experiência, exatamente como se faz nos experimentos científicos, e na racionalidade, com a vantagem de poder ir além de qualquer ramo que a ciência possa penetrar. A união da investigação científica com a experiência contemplativa pode gerar uma grande revolução da ciência. Essa pode ser uma possibilidade gigante que se abre, capaz de curar a distância entre ciência e religião e mesmo entre as religiões que estão em luta pelo mundo.
PARA SABER MAIS:
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"...as pessoas perdem muitas coisas devido ao exagerado controle. Seja como um rio selvagem, e muito do que você nem pode sonhar, nem pode imaginar, nem pode esperar, está disponível logo ali, ao seu alcance. Mas abra as mãos; não continue vivendo a vida com mãos fechadas, porque essa é a vida de controle. Viva a vida com as mãos abertas. Todo o céu está disponível; não se contente com menos." Osho
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